quinta-feira, 25 de junho de 2009

Ela estava em um carro, com os vidros fumês fechados. Era moda, naquela época, ter vidro fumê por conta da violência constante. Não havia combate a violência, só a proteção contra seu crescimento. Se isolar é uma boa saída. No carro não se ouve nada, quando o som do carro está desligado, óbvio. Era encantador ver todos os faróis amarelos do outro lado da avenida, ver o mundo se movimentando e achar paz naquilo. Sem buzinas, sem gritos, sem som. Dava até pra refletir ali, e ela estava fazendo isso. Sobre sua vida, seu rumo. Parecia mais um filme, com os faróis em câmera lenta, com os carros da frente condescendentes ao trânsito. Com as luzes vermelhas... Era só isso que dava pra ver, as luzes vermelhas paradas, transmitindo uma falsa sensação de paz, de tranqüilidade e segurança. O sentimento que não dá pra sentir quando tem um rapaz de olhos fundos e tristes com uma arma apontada para a sua cabeça. Dava para ver através do vidro escuro e a confusão em seu rosto era explícita, mas ela estava bastante distraída para notar que havia uma pessoa do outro lado do vidro a observando. O rapaz só lembrava-se da sua vida sofrida e de como aquela garota era bonita e como estava confortável no seu carro, querendo tapar os ouvidos da vida real com aqueles vidros fechados. Era triste, mas ele precisava daquilo, e pensar em sua vida dava mais coragem a ele. Fora de tudo isso, apenas como um bom observador, uma figura no escuro da rua deserta zelava por aquela vida. –Não- pensou ele- aquela vida me pertence, nada meramente humano irá tomá-la de mim.
Na decisão mais conflitante de sua existência, ele saiu da escuridão para impedir que aquelas duas vidas notassem uma a outra.
Antes mesmo de dar seus passos rápidos e imperceptíveis aos olhos humanos, o sinal abriu e nenhuma duas vidas foram desviadas de seu curso natural. Não que esse caso fosse mudar completamente o destino do observador, ele impediria facilmente qualquer ameaça, mas ser notado era um problema. Lia constantemente os jornais e não, definitivamente não queria que nenhum humano egocêntrico espalhasse boatos, à La “eu ouvi falar em um monstro, ele atacou o amigo do primo da namorada do meu irmão”. Basta. Também nada de se mostrar antes do tempo a ela. Não é o momento certo, nem a melhor situação. Ser sedutor era um de seus dons e nada de deixá-la assustada a toa. –Mas bem que esse sinal poderia ter ficado verde antes. Ah, querida.
Antes de o carro engatar a primeira marcha para sair daquele lugar esquisito ela teve um sentimento forte, uma impressão de que alguém a chamava e precisava dela. Quando ela olhou na direção de onde sentiu o chamado viu, como os faróis do outro lado da avenida, um borrão, mas era vermelho, como uma peça de roupa de alguém que, impossivelmente, saiu muito rápido do seu campo de visão. –Nossa, estou realmente cansada. Ela falou em voz alta, sem lembrar que sua mãe estava do seu lado, dirigindo o carro.
-Não fale sozinha, querida.
Hm, esqueci que ela não gosta, pensou a garota sem se importar muito. Foi pra casa, para seu apartamento razoável no nono andar, entrou no seu quarto arrumadinho, reformado recentemente por seu padrasto. Pediu para pintar, colocar umas estantes brancas para por seus livros que ela tanto zelava. Pintou ele de branco, com uma única parede de um lilás, em tons diferentes pela parede. Tinha amado, nunca gostara tanto de estar em um quarto só seu. Abriu sua janela, que dava para uma varanda. Definitivamente era bem ventilado. Adorava ficar com a cabeça na janela, sentindo o vento bater em seus cabelos grandes e ondulados, mas para o liso. Ficava olhando a noite em seu infinito tom escuro e indagava, toda vezes, como o mundo parecia uma cápsula. Deixava sua mente vagar pelo nada. Foi se deitar bastante cansada, tanto que quase não reparou na figura que estava no escuro da sua varanda. Quase. Levantou-se da cama, só para conferir se dessa vez o pressentimento era real. Foi andando lentamente, porém, antes, muito antes de chegar a sua varanda sentiu algo muito pesado empurrá-la e depois caiu ao chão sem conseguir se mexer. Sentiu uma dor excruciante no seu pescoço e soltou um grito. –Nãããããooooooo.
-Filha, você não dorme durante a noite? Dormiu no carro outra vez. Teve um pesadelo?
Quis tentar sair do carro assustada, mas o cinto a prendeu. Estava suada com o coração acelerado e teve a impressão de ver sua vida passar diante dela. Estava na mesma avenida onde os carros passavam silenciosos do outro lado e o sinal estava prestes a ficar amarelo.
-Mãe, pega a direita, esqueci o celular na casa do meu pai. Não ia deixar essa acontecer Ela nunca deixava e mudar um pouco o caminho conseguia mudar o futuro. –Esses paranormais ainda me matam é do coração.
-Falando sozinha, querida?
-Não, mãe vai logo, por favor, tenho que fazer uma ligação e o número está na agenda do celular.

* * * * * * * * *

-Não sei até quando você acha que vai poder salvá-la, essa ligação entre vocês não fará bem a ninguém.
- Ela não é descartável, você não vê? Essas premonições são boas até para ela.
- Você quem sabe, mas tudo que perdemos voltam para nós, de um jeito ou de outro.
-Enquanto puder avisá-la usarei isso da melhor forma para protegê-la.
- Você se mostrou a ela como o salvador. Como irá protegê-la de você. Quer ganhar sua confiança ou despertar nela o mesmo sentimento que você mantém na sua vida insípida? Ela irá mudar tudo irá mudar.
Saíram os dois sem necessitar de mais uma palavra.

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