Ela não sabia como começar o dia e não teve motivos para ser diferente. Quando acordou, após uma longa noite com pesadelos, a luz ainda estava acesa, pois não conseguia dormir no escuro depois de ler um livro de terror. Ela era assim. Tinha um tipo de fobia a escuro, que a sufocava. Um de seus defeitos. Queria assistir dois filmes que pegara emprestado no dia anterior. Não assistiu a noite pelo mesmo motivo que deixou a luz acesa, se bem que se não aparecesse em seus pesadelos mais motivos para não conseguir dormir não faria diferença.
Tentou assistí-los, mas o aparelho de dvd registrou uma “região errada” e não conseguiu fazê-los pegar.
Foi para o computador, tentar fazer o trabalho de filosofia que iria ser entregue na quinta-feira. Seu pensamento estava longe, em outra cidade, melhor, outro estado. Tinha um relacionamento a distância que às vezes se tornava complicado. E seu pensamento era direcionado muitas vezes do dia à ele.
-Hoje não vou brigar- falou sozinha. Precisava falar sozinha.
Esperou até a noite pra ir a faculdade, mas nesse dia não foi de ônibus, pegou uma carona com seu tio. Estava chovendo muito, normalmente ia de calça jeans, uma blusa de alça e uma sandália de dedo. Permaneceu com o jeans, mas a blusa cobria seu antebraço e foi de tênis, pela primeira vez. Era um tênis um pouco apertado, que seu namorado havia comprado a ela. Lembrava da conversa no celular quando disse:
-Eu calço 37.
Chegou na faculdade cedo, não tinha ninguém que conhecia ainda. Foi terminar de ler, em seu mp4, O iluminado. Adorava ler, e era o primeiro livro de Stephen King que lia. Assustador. Quando começou a aula escreveu tudo o que o professor falava. Não tinha esse costume, preferia prestar atenção. Ah, ela tinha um outro defeito que cabe na história. Seu subconsciente gostava de imitar certas pessoas, quando no dia em que sua amiga disse que anotava tudo na sala e que tinha insegurança em apresentar na frente dos outros. Deu no que deu, mas no fator ter “insegurança” não veio dela. A sua insegurança veio há 5 anos atrás, quando começou seu relacionamento. Se sentia um lixo, as vezes, e achava isso normal.
Após as aulas olhou no relógio e viu que era cedo. Ligou para seu pai para ir lhe pegar e ficou conversando com os amigos. Apareceu uma conversa sobre relacionamentos, inclusive sobre o seu. E um rapaz ao lado deu a seguinte resposta quando perguntaram o que ele faria se uma pessoa encantadora aparecesse para ele:
-Eu sou homem, se uma mulher linda se insinuasse para mim tu acha que eu não ia? A minha namorada é algo sério, mas só para curtir... por que não? E vocês, respondam como homens, sejam sinceros.
Nesse momento o pai dela chegou e ela saiu da roda de conversa. -Será que é assim tão fácil?. Não sabia responder, mas a resposta do rapaz ficou na sua cabeça até ela chegar em casa. Desceu do carro do pai ainda triste, com esse pensamento. Odiava a diferença. imposta pelos próprios homens. entre os sexos. Não acreditava nisso. Abriu o portão com um pouco de dificuldade por causa da pasta e do pacote de presente que ganhara da tia. Seu aniversário tinha sido há quatro dias atrás, no sábado.
Retornou ao lar, falou com seu cachorro, tomou um banho e foi deitar. Ligou para o namorado, mas não atendeu. Queria perguntar a ele se era tão fácil, se ela era também tão dispensável e se ele não achava que bastava se divertir com ela. Queria perguntar também se ele estaria falando a verdade quando negasse. É lógico que ele negaria. Não sei se por instinto, ou por ser a verdade. A verdade sempre é o que queremos escutar. Foi dormir cansada, triste, no frio da noite chuvosa, pensando em “dar uma de doida “ no outro dia. Não ser ela mesma, quando não perguntasse nada.


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